saboreio cada pedaço, cada colherada como se fosse a vida.
como se estivesse à minha frente e eu a querer alcança-la mais do que toda a gente, e menos do que alguém a quem os anos estao sendo contados.
uma e outra colher da vida, e olho em volta e ninguém luta por agarrá-la.
esta carinha de boneca, máscara de mulher, perfil misteriosa, com pintura de barro, cubrindo todas as nódoas e imperfeições da vida, lápis tornando os olhos cada vez mais intensos e mais maduros, um molde que transforma estes lábios mais notáveis, mais fortes de dizer o que seja o que for, a sombra colocada só para fazer parecer mais mulher, e as mãos já conhecem de côr, cada marca deste pequeno rosto de porcelana.
chove e eu tenho da sair, as colheres estao acabando, uma e outra e o gelado da vida esgota-se, como tudo aliás, vai-se esvaindo, vai-nos sendo arrancado das mãos.
esta na hora, na hora de ir e sentir. levanto-me calmamente, nem um olhar para quem quer que seja, cabeça erguida, agarro o puxador com toda a força e empurro.
dou um passo com este salto alto que me mata a cada caminhada e saio.
posso apostar que sinto cada lágrima do mundo. cada som ao cair no meu corpo, vai burrando toda a pintura, vai mandando embora a mulher que mostro ao mundo e fica apenas a menina que nunca tem chance de viver.
os cabelos vao deixando a forma solene e sombria e colam nas minhas costas, agora mergulhadas nesta tempestade.
fecho os olhos, largo o casaco e ouço-o cair, descalço os meus pés sufocados naquele molde, sinto o chão, quente e a água quase gelada.
na minha cabeça vejo toda a minha vida que passa, abro de novo os olhos e vejo a vida dos outros a passar.
passem tenho pressa, e vou - me afastando daquela rua e vou deixando todo o passado agora molhado em lágrimas de saudade.
magnifico
ResponderEliminarmuito obrigada :)
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